- Quem foi Mateus? Identidade e contexto histórico
- O chamado de Mateus: de cobrador a seguidor de Jesus
- O Evangelho de Mateus: autor, público e principais temas
- Qual foi a missão de Mateus como apóstolo?
- Tradição sobre a morte e o legado
- Como o Evangelho de Mateus orienta a missão hoje? Aplicações práticas
- Conclusão
Mateus na Bíblia: quem foi o apóstolo e qual sua missão
Mateus é uma das figuras mais conhecidas do Novo Testamento: autor tradicional do primeiro Evangelho e membro do grupo dos Doze Apóstolos. Sua vida e obra ajudam a compreender o começo da missão cristã, a relação entre Jesus e o judaísmo e as bases éticas do discipulado. Neste texto vamos explorar quem foi Mateus, como ele foi chamado, qual foi sua missão como apóstolo, o conteúdo e os objetivos do seu Evangelho e o legado que deixou para a Igreja e para a vida cristã hoje.
Quem foi Mateus? Identidade e contexto histórico

Mateus aparece nos Evangelhos como um dos Doze Apóstolos. Há duas identidades nomeadas nas narrativas:
- Nos Evangelhos sinóticos, ele é chamado de Mateus (Mateus 9:9; 10:3). Identificam-no como cobrador de impostos (publicano), profissão desprezada pela sociedade judaica da época por sua associação com Roma e possível extorsão.
- Em Marcos 2:14 e Lucas 5:27-29 o cobrador é chamado de Levi, filho de Alfeu. A tradição dos evangelistas costuma explicar que Levi e Mateus são a mesma pessoa — um nome hebraico/arámico (Levi) e um nome grego/latino (Mateus).
Pontos importantes sobre seu contexto:
- Profissão: cobrador de impostos (publicano). Essa posição explicita um rompimento social entre Mateus e muitos judeus, pois publicanos eram vistos como colaboradores com o poder romano.
- Identidade religiosa: originalmente judeu. Isso é crucial para entender por que o Evangelho atribuída a ele tem forte ênfase na continuidade entre Jesus e a tradição judaica.
- Educação: embora não haja dados seguros, a redação do Evangelho de Mateus sugere conhecimento da Escritura hebraica e habilidades literárias suficientes para compor ou organizar um relato teológico.
O chamado de Mateus: de cobrador a seguidor de Jesus
Os relatos do chamado de Mateus são diretos e significativos:
- Em Mateus 9:9, lemos: “Ao passar dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. Ele levantou-se e o seguiu.”
- Marcos 2:14 e Lucas 5:27-28 descrevem cena semelhante, com ênfase no imediato abandono do comércio e no banquete que se seguiu em sua casa, onde Jesus come com muitos publicanos e pecadores.
Duas lições práticas desse chamado:
- Jesus chama pessoas em contextos de exclusão social e imoralidade percebida — a vocação não depende do “histórico” do chamado.
- O seguimento é radical: Mateus “levantou-se e seguiu-o”, sinal de ruptura com a antiga vida.
O Evangelho de Mateus: autor, público e principais temas
Tradicionalmente atribui-se a Mateus a redação do primeiro Evangelho do Novo Testamento. A autoria é tema de debate entre estudiosos, mas é importante considerar tanto a tradição quanto as características do texto.
- Autoria: A Igreja primitiva (Papias, Irineu, entre outros) atribuiu o evangelho a Mateus. A crítica moderna discute se o evangelho foi escrito diretamente por ele ou por uma comunidade que preservou suas memórias e ensinamentos.
- Público-alvo: Fortemente orientado a leitores judeus e prosélitos. O evangelho procura mostrar que Jesus é o Messias prometido nas Escrituras de Israel.
- Principais temas:
- Cumprimento das profecias: a expressão “para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor…” aparece várias vezes (ex.: Mateus 1:22; 2:15).
- Reino dos céus (em vez de “Reino de Deus” usado em outros evangelhos): ênfase na dimensão ética e espiritual do reinado de Deus.
- Sermão da Montanha: grande bloco de ensinamentos éticos e religiosos (Mateus 5–7) que expõe a ética do Reino.
- Discurso missionário e comunitário: instruções para a missão (Mateus 10) e orientações para a vida da comunidade (Mateus 18).
- Autoridade de Jesus: narrativas que mostram Jesus como o intérprete verdadeiramente autorizado da Lei e dos Profetas.
Exemplo de passagens-chave:
- Sermão da Montanha (Mateus 5–7): ética das bem-aventuranças, oração do Pai Nosso, ensino sobre ansiedade, julgamento e o “caminho estreito”.
- A Grande Comissão (Mateus 28:18–20): mandato para fazer discípulos de todas as nações.
- Parábolas e milagres que contextualizam o anúncio do Reino.
Qual foi a missão de Mateus como apóstolo?
Como um dos Doze, a missão de Mateus envolvia aspectos pessoais, comunitários e missionários:
- Testemunhar a vida, morte e ressurreição de Jesus: como apóstolo, Mateus foi um dos testemunhas oculares cujas memórias serviram de base para a pregação cristã.
- Proclamar o evangelho aos judeus: dada sua origem e o conteúdo do evangelho, pode-se dizer que a missão primária foi reunir judeus e prosélitos ao messianismo de Jesus.
- Participar da missão universal da Igreja: a Grande Comissão (Mateus 28:18–20) universaliza a missão — embora Mateus enfatize a conexão com Israel, seu texto termina com um envio a todas as nações.
- Instruir a comunidade sobre ética e organização: os discursos de Mateus contêm orientações práticas sobre liderança, perdão, disciplina comunitária e oração.
Há também relatos tradicionais (extra-bíblicos) que sugerem atividades missionárias de Mateus fora da Palestina — possivelmente na Etiópia, Pérsia ou região da África oriental — mas esses detalhes são imprecisos e não surgem de fontes históricas contemporâneas confiáveis.
Tradição sobre a morte e o legado
As fontes históricas sobre a morte de Mateus são incertas e tendem a ser lendas hagiográficas:
- Tradição ocidental: situa o martírio de Mateus em torno de 60–70 d.C., com relatos variados sobre local e modo da morte (algumas versões falam em martírio na Etiópia).
- Tradição oriental: também narra missões e possíveis sofrimentos, mas há divergência nas narrativas.
Apesar da incerteza histórica, o legado de Mateus é sólido:
- O Evangelho de Mateus foi altamente valorizado na Igreja primitiva — serviu como manual catequético para educação cristã e liturgia.
- A ênfase na continuidade com a Escritura hebraica ajudou a dialogar com o judaísmo e a apresentar Jesus como cumprimento das promessas divinas.
- A ética mateana — justiça, misericórdia, humildade, perdão — tornou-se pilar da formação moral cristã.
Observação litúrgica: A festa litúrgica de São Mateus é celebrada, no calendário romano, em 21 de setembro; na tradição ortodoxa, também há celebrações em outros dias conforme o calendário local.
Como o Evangelho de Mateus orienta a missão hoje? Aplicações práticas
O Evangelho atribuído a Mateus traz orientações úteis para a vida pessoal e a missão comunitária:
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- Missão que une Palavra e prática: Mateus apresenta Jesus como mestre e praticante — proclamar o evangelho inclui testemunhar ética e compaixão.
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- Enfoque no anúncio para todos: embora concebido para judeus, o evangelho termina com envio universal. Missão cristã é local e global.
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- Preocupação com a formação de discípulos: a instrução prática (oração, perdão, disciplina) mostra que missão não é apenas conversão numérica, mas discipulado profundo.
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- Cuidado com a autoridade religiosa: Mateus lembra que seguir Jesus implica interpretar a Lei na direção do amor e da justiça, não do legalismo.
Exemplos práticos:
- Sermão da Montanha como guia para ética social em áreas como honestidade, reconciliação e generosidade.
- Mandamento de perdoar para construção de comunidades saudáveis (Mateus 18).
- A Grande Comissão como fundamento para programas de formação, ensino bíblico e iniciativas missionárias.
Conclusão
Mateus, o cobrador de impostos que se tornou apóstolo, é uma figura emblemática da transformação que Jesus promove. Tanto pela tradição de sua autoria quanto pela riqueza teológica do Evangelho que leva seu nome, Mateus apresenta Jesus como o cumprimento das promessas de Israel e como mestre de uma nova ética do Reino. Sua missão, entendida historicamente como testemunho, pregação aos judeus e contribuição para a formação da comunidade cristã, estende-se hoje em responsabilidade missionária, ensino e vida moral. Ler Mateus é, portanto, encontrar um convite persistente: seguir a Jesus em corpo, palavra e ação — e formar discípulos que reflitam o Reino na prática cotidiana.
