Share

Quem escreveu o Evangelho de Mateus: história e curiosidades do apóstolo

Illustration of Quem escreveu o Evangelho de Mateus: história e curiosidades do apóstolo

Quem escreveu o Evangelho de Mateus? História e curiosidades do apóstolo

O Evangelho de Mateus ocupa lugar central no Novo Testamento: é um dos três evangelhos sinóticos, enfatiza a ligação de Jesus com a tradição judaica e contém textos muito conhecidos — como o Sermão da Montanha e a Grande Comissão. Mas quem escreveu esse evangelho? A tradição cristã atribui-o a Mateus, o cobrador de impostos e apóstolo; a pesquisa moderna, porém, apresenta uma visão mais complexa. Neste artigo você encontrará a história da atribuição, argumentos a favor e contra a autoria tradicional, informações sobre o próprio Mateus e curiosidades que ligam o personagem histórico à obra que leva seu nome.

Quem foi Mateus, o apóstolo?

Illustration of Quem escreveu o Evangelho de Mateus: história e curiosidades do apóstolo

Mateus é apresentado nos evangelhos como um dos doze apóstolos. Dois nomes aparecem na tradição:

  • Mateus (do hebraico “Mattityahu”, “dom de Deus”) — nome usado na lista dos Doze em Mateus 10:3.
  • Levi, filho de Alfeu — nome com que é identificado em Marcos 2:14 e Lucas 5:27–29. Muitos estudiosos consideram que Mateus e Levi são a mesma pessoa: um cobrador de impostos (telonai), chamado por Jesus para segui-lo.

Características e dados tradicionais:

  • Profissão: publicano (cobrador de impostos), provavelmente trabalhando para Roma ou para autoridades locais.
  • Conversão: chamado por Jesus em um episódio que envolve deixar o posto e oferecer um banquete em sua casa (Lucas 5:27–32; Mateus 9:9–13).
  • Papel entre os apóstolos: um dos Doze, não tão proeminente quanto Pedro, João ou Tiago, mas presente nas tradicionais listas apostólicas.
  • Patrono e ícone: na arte cristã, Mateus é frequentemente representado com um anjo ou homem alado e é tido como padroeiro de cobradores de impostos, contadores e bancários.

Tradição antiga sobre a autoria do evangelho

A tradição patrística identifica Mateus como autor do evangelho que leva seu nome. Três testemunhos antigos são fundamentais:

  • Papias de Hierápolis (início do século II) — citado por Eusébio: afirma que “Mateus compilou os logia (ditos) em língua hebraica, e cada um os traduziu como pôde”. A leitura exata desse fragmento é polêmica, mas Papias claramente atribui a Mateus uma forma de colecionar ensinamentos de Jesus.
  • Ireneu de Lyon (final do século II) — refere-se a Mateus como autor do primeiro evangelho escrito entre os judeus em língua hebraica.
  • Orígenes e Eusébio — reiteram a tradição patrística que identifica Mateus como autor.

Essas fontes sustentam a asserção antiga: o evangelho foi composto ou compilado por Mateus, possivelmente em aramaico/hebraico, e depois circulou em grego.

O que o próprio evangelho nos mostra?

Alguns traços internos do texto ajudam a entender a natureza do documento e a questão da autoria:

  • O evangelho é anônimo. Como os outros evangelhos, não contém uma introdução “Eu, fulano, escrevi…”.
  • Língua e estilo: o texto que temos é em grego koiné. O grego de Mateus é sofisticado em muitos trechos, com citações do Antigo Testamento e estrutura teológica bem articulada.
  • Dependência de outras fontes: a crítica moderna mostra que Mateus usa o Evangelho de Marcos como uma de suas fontes (hipótese das duas fontes). Cerca de 90% do conteúdo de Marcos aparece em Mateus, muitas vezes com acréscimos e reescritas.
  • Material exclusivo (designado “M” pelos estudiosos): Mateus contém períodos que não aparecem em Marcos nem em Lucas — por exemplo, as narrativas de infância (capítulos 1–2), o sermão da montanha (capítulos 5–7, embora Lucas tenha um “sermão em plano” mais curto) e o relato do julgamento final em 25.
  • Público: a ênfase em cumprimento da Escritura, genealogia de Jesus e linguagem judaica sugere que o evangelho foi dirigido a comunidades de origem judaica-cristã.

Debates modernos sobre autoria e data

A partir do século XIX, a crítica bíblica formulou análises mais detalhadas sobre quem escreveu Mateus e quando. Principais pontos da visão acadêmica dominante:

  • Autoria: o evangelho é provavelmente anônimo e foi atribuído a Mateus por tradição posterior. A redação em grego, o uso de Marcos e a ausência de qualquer declaração direta de autoria no texto indicam que não necessariamente foi escrito pessoalmente por Mateus, o apóstolo.
  • Data: muitos estudiosos situam a composição entre 80–95 d.C., embora haja propostas mais cedo (por volta de 70 d.C.) ou mais tarde. A data tende a refletir a presença de tradição cristã já desenvolvida e conhecimento do conflito entre igreja e sinagoga, sugerindo um contexto pós-destruição do Templo (70 d.C.) ou um período de consolidação das comunidades.
  • Local: Antioquia (Síria) é comumente proposta como provável lugar de composição, por ser um centro de cristãos de origem judaica que falavam grego e onde tradições patrísticas também colocam origens dos evangelhos.
  • Fontes: a hipótese das duas fontes — Marcos + Q (coleção de ditos de Jesus hipotética) — explica muito do conteúdo. Além disso, Mateus empregou tradições orais e escritas (o material “M”) para compor uma obra teologicamente organizada.

Por que a tradição afirmou Mateus como autor?

Algumas razões históricas e teológicas explicam por que os primeiros cristãos atribuíram o evangelho a Mateus:

  • Autoridade apostólica: associar o texto a um dos Doze dava legitimidade e autoridade doutrinária.
  • Memória coletiva: Mateus, como cobrador de impostos que virou discípulo, era uma figura memorável e plausível para conservar ditos de Jesus.
  • Papias e outros escritores locais podem ter conhecido uma coleção oral ou escrita associada a Mateus, confundindo-se com o evangelho grego final.

Curiosidades e fatos interessantes sobre Mateus e seu evangelho

  • Mateus e o “anjo” na iconografia: nos quatro símbolos tradicionais dos evangelhos, Mateus é representado por um homem ou anjo (entrando na genealogia de Jesus e na ênfase na humanidade do Messias). Marcos, por exemplo, é o leão; João, a águia; Lucas, o touro.
  • Patrono de profissionais: desde a Idade Média, Mateus é considerado padroeiro dos arrecadadores de impostos, bancários, contadores e agentes financeiros — uma ironia histórica, visto que sua profissão anterior era precisamente essa.
  • O “Sermão da Montanha” como carta magna ética: Mateus organiza grande parte do ensino de Jesus em cinco grandes blocos discursivos — uma estrutura que muitos estudiosos veem como deliberada, espelhando os cinco livros de Moisés (Torá), reforçando a ligação com a tradição judaica.
  • “Cumprimento das Escrituras”: Mateus usa a fórmula “para que se cumprisse” (Mateus 1:22; 2:15; etc.) várias vezes, sublinhando que Jesus realiza as promessas veterotestamentárias.
  • Relíquias e lugares: diversas igrejas e tradições afirmam possuir relíquias de Mateus ou locais de sua atividade missionária (Etiópia, Pérsia, etc.), mas as evidências históricas são incertas e muitas vezes tardias.
  • Textos judaico-cristãos: além do evangelho canônico, a tradição menciona o “Evangelho de Mateus” em língua hebraica/aramaica citado por Papias; alguns estudiosos propuseram que isso refletia uma coleção de ditos judaicos-cristãos que circulou paralelamente.

Exemplos que ajudam a entender o estilo e a teologia de Mateus

  • Narrativa da infância vs. Marcos: Mateus começa com uma genealogia que liga Jesus a Abraão e Davi (Mateus 1:1–17), depois apresenta uma narrativa de nascimento com visitas de magos e fuga para o Egito (Mateus 2). Marcos, em contraste, inicia no ministério público de Jesus (batismo por João).
  • Sermão da Montanha (Mateus 5–7): reúne ensinamentos centrais — Bem-aventuranças, ética da reconciliação, oração do Pai Nosso, ensino sobre amor aos inimigos — e tem função programática para a comunidade mateana.
  • Grande Comissão (Mateus 28:18–20): “Portanto ide e fazei discípulos de todas as nações…” — trecho decisivo para a missão universal da igreja e para a formulação da vocação missionária cristã.
  • Uso das Escrituras: Mateus frequentemente cita o Antigo Testamento com a intenção de mostrar que Jesus é o cumprimento das promessas, por isso a linguagem “cumprir” aparece reiteradamente.

Por que a questão da autoria importa?

PUBLICIDADE...

A pergunta “quem escreveu?” tem implicações teológicas, históricas e hermenêuticas:

  • Autoridade e tradição: a atribuição a Mateus dá uma linha direta com os apóstolos, conferindo autoridade doutrinal para muitas comunidades cristãs antigas.
  • Contexto de leitura: saber que o evangelho foi composto por uma comunidade judaico-cristã ajuda a interpretar passagens que dialogam com a Lei, os fariseus e a relação entre igreja e sinagoga.
  • História da formação do cânon: a atribuição apostólica foi crucial para que esse evangelho ocupasse, desde cedo, lugar de destaque no cânon.

Conclusão

A tradição antiga atribui o Evangelho de Mateus ao apóstolo e cobrador de impostos Mateus (também chamado Levi). Essa identificação teve grande força nos primeiros séculos da Igreja e ajudou a consolidar a autoridade do texto. A pesquisa moderna, no entanto, mostra que o evangelho que conhecemos é provavelmente um produto comunitário escrito em grego, utilizando várias fontes (incluindo Marcos) e destinado a cristãos de origem judaica. Ainda assim, a figura de Mateus permanece central na história do cristianismo: tanto como personagem transformado pela chamada de Jesus quanto como símbolo da ponte entre o judaísmo e a nova fé cristã. Seja lido como obra atribuída a Mateus ou como fruto de uma comunidade mateana, o Evangelho que leva seu nome continua a ser fonte rica de teologia, ética e história para leitores de todo o mundo.

Tom Santos
Sobre o autor

Tom Santos

Estudo da Bíblia com profundo conhecimento das Escrituras, dedicado à interpretação teológica e à aplicação prática dos ensinamentos bíblicos. Especializado em exegese, história bíblica e análise de textos sagrados, buscando compreender e compartilhar a sabedoria contida na Palavra de Deus. Comprometido com o crescimento espiritual e o entendimento mais profundo da fé cristã.

Deixe um comentário